quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Narciso


I.
 Nunca entendemos seu jeito recluso, nem conseguimos atinar da razão de seus sorrisos gratuitos, dados pra ninguém. Ficava sempre só, e caminhava indiferente a tudo.
 Também ia mal na escola, mas não bagunçava, e certamente não era um de nós – os que não gostamos de livros por achá-los tediosos. Na verdade, passava horas a fio rabiscando letras no caderno; a cabeça, encantada com as tais, deixava-se pender.  Ia sempre apoiada. Não olhava para o lado.
 No começo, tentamos irritá-lo. O provocávamos, mas sempre inutilmente. Passamos a pôr-lhe a culpa por nossas travessuras, e isso durou até que os professores e funcionários deixaram de acreditar-nos, pois ele não se defendia nunca. Por fim, também essa piada perdeu a graça.
 Ficamos muito tempo sem saber nada sobre ele, até que um dia alguém descobriu-lhe a residência. Naquele então, S José era um bairro muito mal afamado. Sendo a periferia de Campo Limpo Paulista, seus moradores eram tidos e havidos por gente sem valor. Essa descoberta foi um acontecimento, e por pelo menos duas semanas, não se falou sobre outra coisa. Conjecturou-se tudo: uns, disseram que ele foi estuprado, enquanto outros, que fora amamentado com drogas; havia os que eram adeptos da idéia de que ele fora abduzido, e alguns ainda, que fora abandonado quando pequeno, e criado por cães. Mais de um bom coração lamentou-lhe o destino, se bem que os sorrisos de escárnio certamente foram em maior número. Durante todo um ano letivo as opiniões sobre o rapaz foram o critério pelo qual os grupos se formavam, mas já no segundo ano isso tornou-se coisa secundária.
II.
 Crescíamos. Ele também. E assim ia-se cavando ainda mais o poço da distância. Nós, já de cochichos, a espiar as meninas; ele, sempre o mesmo sorriso, o mesmo deslumbre. Prosseguia a rabiscar coisas que não pareciam fazer sentido, mas como até aquele então, não nos havia ocorrido a idéia de olhá-lo mais de perto, o caderno, tornou-se comum considerá-lo um poeta.
 Como não poderia deixar de ser, porém, um dia surgiu entre nós um desbravador. Toda turma um ou outra dado a valentias, para quem é sempre uma satisfação fazer o que ninguém se dispõe a tal – seja por razões morais, ou simplesmente por não ver nisso utilidade. Em nossa turma esse papel cabia a R.
III.
Nosso valentão era um sujeito curioso. Primeiro: faltava-lhe qualquer noção de bom senso. Certa vez uma colega nossa sofreu um acidente. Sua mãe trabalhava na barraca de pastel, na feira, e ela a ajudava aos finais de semana – coisa de que muito se envergonhava. Antes mesmo do acidente, nosso camarada R. não a poupava, gracejava-lhe coisas, e nós ríamos. Mas paramos de rir depois do acidente, quando então passamos a tratá-la do modo melhor, por vezes esbarrando mesmo no paternalismo. Tanto quanto possível, fingíamos ignorar suas feridas, que por sinal trouxeram-lhe algum charme, mas também isso evitávamos falar. Já o R. agia de modo muito diverso. Ele parecia imune as mais óbvias obrigações morais para com os desvalidos, e só a partir daí notamos que estávamos a criar um monstro, sempre que ríamos de suas pilhérias. Naturalmente, ela não agüentava. Chorava mui amiúde, e não sabíamos o que fazer. Isto ia num crescendo, e certamente nosso paternalismo era-lhe tão deletério quanto os gracejos de R.. deprimiu-se a moça, e parecia seguir segura e firme para o precipício, até que, para surpresa de todos, o vimos, ao rapaz quieto, sair de sua carteira. Dirigiu-se para a dela, e lhe entregou um bilhete. Silêncio tumular na sala. Depois, murmúrios, cochichos, e um sorriso: o dela! Embeveceu-se imenso com o tal bilhete, e já no dia seguinte, se bem que prosseguia ainda mais quieta de que antes do acidente, voltara a ter paz. Inutilmente o R. tentou chateá-la, a partir daí. Infelizmente, porém, ele não se contentou com mexer nos galhos, e foi-se dar ao tronco, tal qual uma criança grande...
IV.
Passemos agora do menu aos pratos: despeitado, o R. decidiu tomar o caderno do rapaz. A turma prontamente se cindiu em duas: de um lado, os que lhe incentivavam a maldade; do outro, a turma do “deixa disso”. Ao fim e ao cabo, porém, venceu o anjo mau. Assim que deu a hora do recreio, ele foi até a mesa do colega misterioso e lhe pediu o caderno. Este, por sua vez, permaneceu indiferente. Então o R. tomou o caderno, inesperadamente. Inesperadamente! O que se seguiu então, sabei-lo, é lenda até os dias de hoje. O rapaz pulou-lhe ao pescoço. Rosnava. Seus olhos, o tinham em fúria, de tal modo que foram necessários muitos de nós para segurá-lo, e tão logo o conseguimos imobilizar, o vimos fenecer, a semelhança do que ocorre a flores nas mãos de crianças. Morria! Protestava ainda, mas já sem força, como quem se afoga e já não se debate mais. Dizíamos que era só uma brincadeira, e que logo teria seu caderno de volta, mas em vão.
 Assim sendo, dirigimos nossos protestos ao R., para que devolvesse logo o caderno ao colega. Fizemos isso duas ou três vezes, mas inutilmente. Já não nos ouvia, ou parecia não ouvir, pelo menos. Sorria, e outros três, os quais tinham sob a vista o tal caderno, sorriam o mesmo sorriso embevecido com que sorria, gratuitamente e para ninguém, nosso outro colega. Perdemo-los os três, mais o rapaz, que morreu alguns dias depois, de inanição.
 O caderno, queimaram-no por maldito, e mesmo hoje ignoramos-lhe o conteúdo...

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